Reproduzo aqui uma matéria muito interessante que saiu na Tribuna de Minas do dia 22/11. Pra quem quer saber mais sobre o Kindle clique aqui.
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Quem tem medo do Kindle?
Leonardo ToledoEle chegou fazendo barulho e prometendo colocar abaixo uma tradição que já dura mais de 500 anos. Há quem duvide. Divergências a parte, o fato é que o Kindle, leitor de livros eletrônicos (e-books) da Amazon, levantou a poeira de uma questão que veio à tona no fim do XX, com o início da popularização do computador, e andava um tanto esquecida em meio à velocidade da evolução tecnológica. Seria esse pequeno e frágil aparelho o responsável por decretar o fim do papel?
O professor Rogério de Souza Sérgio Ferreira, responsável pela disciplina “Tecnologias do texto” do curso de Letras da UFJF, acredita que a novidade não invalida o formato tradicional de leitura. “É um recurso a mais, que não vai fazer concorrência ao suporte tradicional. Há limitações nesse produto que farão as pessoas continuarem a usar o livro”, afirma, lembrando que a primeira dificuldade para os juizforanos será o próprio download dos e-books, feito através da tecnologia 3G, ainda não disponível na cidade. Através do Kindle, o usuário pode comprar um e-book diretamente do site da Amazon. O arquivo será transmitido pela empresa, em menos de um minuto, utilizando rede sem fio.
A professora da Faculdade de Letras da UFMG Carla Viana Coscarelli, que desenvolve pesquisas nas áreas de letramento digital e novas interfaces de leitura, também não acredita que o aparelho vai acabar com o livro convencional. Segundo ela, o Kindle contraria a tendência pós-moderna da convergência de mídias em um mesmo suporte. “A legibilidade é muito boa, e você pode mudar o tamanho da fonte, o que é ótimo, mas não acredito que seja preciso ter um aparelho só para ler. Os laptops e palm tops já fazem isso”, opina a educadora, que já teve a oportunidade de ver o leitor da Amazon de perto, mas não se interessou em comprar um.
Críticas positivas e negativas
Usuários da novidade também não pouparam o Kindle de duras críticas nos fóruns de discussão da internet. Em geral, o produto tem decepcionado pela quantidade pequena de títulos disponíveis em português e pelo fato de impedir o compartilhamento de arquivos, algo que contraria a função social de circulação que o livro sempre exerceu. “Não se pode emprestar um e-book desses, a não ser que se empreste o aparelho inteiro”, destaca Rogério Ferreira.
Outro fator de resistência à essa tecnologia seria o conforto proporcionado pelo papel, suporte do qual o leitor já é íntimo. “As pessoas não vão se livrar de um hábito como esse do dia para a noite. É uma questão de tempo, mas a substituição total é difícil de acontecer. Estamos somando mais um meio”, pondera Carla Coscarelli. O preço elevado também é outro fator que tem limitado a adesão de leitores. No site de Amazon, a versão mais atual custa U$ 489 (cerca de R$ 850 pela cotação do dólar da última quinta-feira).
Por outro lado, a capacidade do aparelho de acumular até 3.500 livros na memória, aliada à facilidade para baixar títulos importados por uma média de U$ 10 (pouco mais de R$ 17) salta aos olhos de acadêmicos e aficionados por livros em geral. Da maneira convencional, a aquisição sai por um preço bem mais elevado, além de demorar semanas até que a encomenda chegue às mãos do destinatário. “Desse ponto de vista, é quase uma biblioteca móvel”, comenta Rogério, que pretende, em breve, comprar um Kindle.
Leitor sem papel
“Qualquer tecnologia que venha motivar a leitura é muito bem vinda”, opina a coordenadora do mestrado em letras e literatura brasileira do Centro de Ensino Superior (CES-JF), Nícea Helena Nogueira. Adepta dos e-books e outros recursos virtuais, a professora ministra alguns de seus cursos sem recorrer ao papel. “É uma rotina muito econômica e que tem uma portabilidade muito boa, já que não acumulamos papel”, afirma, ressaltando que o meio virtual tem se mostrado um importante aliado, proporcionando acesso gratuito a clássicos da literatura (caso do site Domínio Público) e a obras raras escanealizadas.
Os três especialistas são unânimes ao considerar que o Kindle pode desencadear um aumento no índice de leitura entre os jovens, acostumados desde a infância à velocidade da tecnologia. O efeito esperado é o mesmo dos programas de bate-papo pela internet, como o MSN, que estariam fazendo os adolescentes escreverem mais. “É outro público. Se é papel ou texto digital não importa, o que vem ao caso é a qualidade da leitura”, comenta Nícea. “Há uma convergência entre velho e novo, e todos saem ganhando com isso”, complementa Rogério.
Só o começo
As críticas ao design e à funcionalidade, indicam que o Kindle é apenas o primeiro passo para um produto que precisa de aprimoramento. Os rumores, aliás, são de que protótipos de três empresas concorrentes estariam em fase de testes, alguns deles prometendo um aparelho mais fino, com tela flexível e que lê imagens em cor.
Há dois anos disponível no mercado norte-americano, o leitor já tem três diferentes versões. Nas duas mais recentes, o Kindle 2 e o Kindle DX, o usuário também pode optar por receber jornais, diariamente. As primeiras tentativas de criar um aparelho exclusivo para a leitura de e-books teriam surgido em 1998, mas o produto só foi viabilizado graças à invenção do chamado papel virtual, fosco, com bom nível de contraste e menos cansativo que a tela de computador.