Prazer da Leitura

29 Novembro, 2009

O real Maravilhoso no filme Besouro

Arquivado em: Cinema e Literatura — LeoGrav @ 10:00 pm
O objetivo desta análise é fazer uma transposição de conceito do gênero literário, conhecido como real maravilhoso, para relacioná-lo com o filme brasileiro, Besouro.
Antes, é necessário algumas considerações acerca do conceito de Realismo Mágico e do Real Maravilhoso.
O Realismo Mágico nasce na europa do século XX, especificamente na Alemanha. Foi utilizado por pintores – de viés surrealista – para designar uma pintura que alterasse a realidade. No gênero literário o primeiro a utilizar foi o venezuelano Arturo Uslar Pietr.
Entretanto, com o avançar da teoria literária, desenvolveu-se um novo conceito, a saber: Real Maravilhoso, com o cubano Alejo Carpentier, em seu livro intitulado “Lo Maravilloso”.
A diferença entre Realismo Mágico e Real Maravilhoso para Alejo Carpentier é que o primeiro conceito designa uma fase que fora influenciada pelo surrealismo, ou seja, para se conseguir os efeitos fantásticos os autores criaram construções fora do c otidiano, como por exemplo: reis com cabeças de animais e que detinham poderes; objetos que revelavam um poder extraordinário, etc. Para este escritor e teórico, este tipo de produção é uma pobreza da imaginação (Prólogo do livro El reino de este mundo). Já o Real Maravilhoso propõe o fantástico extraído do cotidiano, do comum, não precisa de recursos extras, pois o maravilhoso está presente na realidade. Para Alejo a América Latina seria o real maravilhoso.
O gênero do Real Maravilhoso teve seu boom nas décadas de 60/70, principalmente na América Latina. Alguns escritores que utilizaram este recurso literário foram: o colombiano Gabriel Garcia Marquez; os argentinos Borges e Cortázar; o cubano Alejo Carpentier; o brasileiro José da Veiga, etc.
Ao fazer um paralelo entre a obra do cubano Alejo Carpentier intitulada “El reino de este mundo” e o filme Besouro, produção de  Vicente Amorim, Fernando Souza Dias, João Daniel Tikhomiroff; encontramos alguns elementos em comum.
No livro de Carpentier o real maravilhoso está na história do Haiti, em sua religião, o Vudu. O Vudu foi uma mecanismo cultural, através do escravo Mackandal de possibilitar a união, a identidade e consciência dos escravos haitianos frente a colonização francesa, culminando na Independência do Haiti em 1804.
No filme Besouro, o real maravilhoso está na capoeira, no Candomblé (crença do corpo fehado),através do capoeirista denominado Besouro que também ensejará a união, a identidade e a consciência dos escravos que viviam no começo da década de XX no Brasil, na região nordeste.
Mesmo findo a escravidão, a situação real em alguns lugares era de marginalização e a condição de não cidadãos da República, o que fazia voltar as velhas práticas da escravidão, agora nas mãos dos coronéis.
Enfim, o recurso do Real Maravilhoso muito usado na literatura foi utilizado de forma genial no filme, além dos elementos parecerem muito com as do livro supracitado do autor cubano.
É oportuno a leitura do livro O Reino deste Mundo, assim como, uma passagem ao cinema para ver Besouro.
25/11/2009 por Raphael Reis

Raphael Reis
Pós-Graduando em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF)
Graduado em História (UFJF)
Tutor de Espanhol (UFJF)
raphaeloliveirareis@yahoo.com.br
(32) 8823-7540

22 Novembro, 2009

Em Juiz de Fora, “Seminário Euclides da Cunha: cem anos sem”

Arquivado em: Eventos — LeoGrav @ 5:57 pm

Euclides da Cunha descobriu o Brasil costa adentro. Depois de mais de um século da façanha, falta ao país desvendar o escritor por inteiro. Essa será a proposta do “Seminário Euclides da Cunha: cem anos sem”, que celebra o centenário de morte do autor de “Os sertões”. Promovido pelo Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) – em parceria com o Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES) e com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) – o evento tem início na próxima quarta-feira. Segundo o pró-reitor de cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, o objetivo da iniciativa é discutir a contribuição oferecida pelo literato carioca ao cenário da cultura nacional, além de despertar os olhares de leitores e estudantes para outras de suas obras, tão importantes quanto a que retratou a tragédia de Canudos.

Cem anos sem

Programação

Quarta
17h: Abertura
17h30: “Euclides da Cunha” – Daniel Piza
19h: “Euclides da Cunha e a tradição literária brasileira” – Marcos Rogério Cordeiro (UFMG)

Quinta
17h: “Os Sertões, a antropologia biológica e o nacionalismo” – Luiz Costa Lima (PUC / RJ)
18h30: “Euclides da Cunha: sintoma do cânone” – Flávio Rena Kothe (UnB)
19h30: Exibição de “Guerra de Canudos” (1997, 169 min) – com direção de Sérgio Rezende

Sexta
17h: “Canudos e o pêndulo de Euclides: novas vozes, outras viagens” – Aleilton Fonseca (UEFS)
18h30: “A Canudos de Vargas Llosa” – Rinaldo de Fernandes (UFPB)

 

Fonte: Tribuna de Minas

 

8 Novembro, 2009

Convite a leitura

Arquivado em: Outros — LeoGrav @ 2:53 pm

O grupo de leituras é  um espaço onde algumas pessoas se reúnem para comentar a leitura realizada, estreitar amizades e até mesmo saborear algum petisco!

A montagem de um clube de leitura perpassa, primeiramente, por questões de afinidade e do desejo de compartilhar idéias, tornando a leitura algo mais prazerosa na medida em que ocorre a circularidade da informação.

Outro passo importante é delimitar o que se quer: um grupo de leitura de obras clássicas ou de História ou de literatura em geral, etc. Por exemplo, no grupo que participo na cidade de Juiz Fora – Prazer da Leitura – abrimos espaço para qualquer tipo de leitura.

O ideal é que o grupo tenha no máximo 8 integrantes, pois facilita os encontros, as discussões e as amizades. Geralmente, o encontro ocorre uma vez por mês com duração aproximada de 2 horas na casa de um dos participantes ou em locais como Cyber Café.

A aventura da leitura se dá de uma maneira extremamente agradável e dinâmica. Antes de entrar propriamente dito nos comentários referentes à obra escolhida, os participantes trocam “artigos de perfumaria”, conforme expressão de um dos veteranos de clube de leituras, Leo Rosa. Estes artigos de perfumaria podem ser poesias, canções ou algum material informativo. Depois, há uma contextualização da obra e do autor – elementos fundamentais, haja vista que os integrantes terão que pesquisar informações aprofundando o entendimento da leitura.

Além destas características mencionadas, é valido ressaltar a importância da assiduidade e do comprometimento com a leitura a ser realizada.

E agora? Monte o seu grupo ou clube de leitura e permita-se a deliciar de uma nova oportunidade de crescimento cultural e social!  

Raphael Reis
Pós-Graduando em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF)
Graduado em História (UFJF)
Tutor de Espanhol (UFJF)
raphaeloliveirareis@yahoo.com.br

19 Outubro, 2009

Museu da Corrupção

Arquivado em: Sites interessantes — LeoGrav @ 5:54 pm

Vale a pena visitar o MuCo – Museu da Corrupção. O site trás links como: Sala dos escândalos, Sala das CPIs, Linha do tempo (onde os escândalos são mostrados por década, desde 1960 até os dias de hj), Sala Multimidia (com vídeos), Loja virtual (com itens super engraçados como telefone grampeado, camisas com colarinho branco, cueca com espaço para acondicionar moeda estrangeira etc.).

É um site muito interessante para manter viva a nossa memória e nos incentivar a votar melhor…

Para conferir, é só ir em:

http://www.dcomercio.com.br/muco/home.htm

7 Outubro, 2009

Entrevista do mês

Arquivado em: Entrevista, Literatura — LeoGrav @ 5:39 pm

Post do integrante do grupo Raphael Reis:

A entrevista deste mês foi realizada com a Professora Doutora Silvina Carrizo, docente da UFJF, do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas.

Possui graduação em Licenciatura em Letras – Universidad de Buenos Aires (1992), mestrado em Letras pela Universidade Federal Fluminense (1997) e doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense (2004). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: identidades, latino-americanismo, indigenismo, literatura brasileira, a narrativa de 1930 e as suas relações com a contemporânea.

Raphael Reis: Qual é a importância da leitura e da literatura para uma sociedade?

Professora Silvina: Eu diria que já quando nascemos e abrimos nossos olhos somos ensinados para ler, olhar é uma forma de ler os sinais e signos do mundo. Nossa civilização tem-se focado demais na prática cultural de ver, olhar: formas da leitura. Talvez seja por isso que nos impressionam tanto as histórias de cegos e da cegueira: Tirésias, Édipo, e romances tão instigantes como Sobre héroes y tumbas de Sábato e, o mais recente, Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, entre outros tantos.

A leitura que a Literatura possibilita é ainda de outra índole. A operação que a Literatura faz em nós leitores diz respeito a formas de sentir e ver o mundo através da imaginação. É uma atividade do prazer, porém de um prazer vinculado à atividade cognoscitiva e dos sentidos trabalhando juntas numa maior aproximação à realidade, ao mundo, aos seres humanos. Retiro-me da sociedade para ler um livro, e o livro me devolve à sociedade por outro caminho, aliás, me atreveria a dizer que volto à sociedade ainda melhor, um ser humano melhor.

A arte de contar histórias, de condensar pensamentos, ações, sentimentos não tem data, entretanto a partir do momento em que se torna uma experiência isolada com a chegada da tecnologia da escrita, o leitor e o livro configuram uma experiência única. O mundo se transforma numa infinitude de experiências que só cobram sentido a partir desse ato corporal de pegar o livro com as mãos, sentados, encostados, na cama, na grama, na areia, de ficarmos sozinhos horas lendo folhas de papel costuradas, com tapas diferentes, cada vez mais maravilhosas, esse objeto livro… Cada leitor, todos nós, decidimos como num ritual o momento em que abrimos o livro, nós nos abrimos ao outro, nos entregamos, nos deixamos atravessar pelo sentido da experiência que esse outro, o autor, nos proporciona como uma oferenda. Em comunhão lemos, no entanto em solidão. Se perdemos a experiência do narrador tradicional, essa possibilidade coletiva ente a voz e a audição
atravessada pela história da comunidade, ganhamos ao atingir a solidão, nesse mundo de simulacros no qual parece que nunca podemos chegar a nós mesmos. Ganhamos, digo, quando atingimos a solidão. Esse nosso lar que nos confronta com nós mesmos, com a vida, com os outros, com o mundo, com a imaginação, com a realidade.

Faz pouco tempo assisti na TV um documentário sobre a história da Palestina, num momento passam uma gravação ao vivo de um cinegrafista amador: depois de uma das tantas intifadas do povo palestino — explica a voz em off — na seqüência das imagens, o exército israelense tem ordens de quebrar os ossos dos revoltados com pedras. Ao assistir essas cenas é impossível não chorar: como viver com isso? Como ser feliz com isso? A Literatura tem nesse sentido um papel exemplar, mediador, pedagógico, liberador nas nossas sociedades, pode contribuir para re-pensarmos nossa condição humana, como na bela epígrafe de Ricardo Piglia no seu romance Respiración artificial, epígrafe de T.S. Elliot, que diz algo assim: “Tivemos a experiência, uma aproximação a ela, pode nos devolver o sentido”.
As pessoas lêem em diferentes lugares, em variadas posições corporais, em diferentes horas do dia, porém todos carregamos o livro que estamos lendo o dia todo, levamos ele no nosso corpo, na nossa cabeça para o trabalho, para o supermercado, para o consultório médico. O livro fica em nós, cobra vida.
Quando as pessoas se reúnem para lerem em voz alta poesias, quando uma criança escolhe um livro numa feira de livros numa escola, quando alguém não pode ir dormir sem antes ler 10 minutos o romance que comprou na livraria, devemos ficar atentos e cheios de esperança. Pois é assim, na solidão, que a imaginação trabalha, e sem imaginação, na há mudanças.

Raphael Reis: Atualmente, percebe-se um diálogo cada vez mais profícuo entre História e Literatura. O que torna importante este encontro?

Professora Silvina: Acredito que esse diálogo entre História e Literatura se tornou mais profícuo a partir das mudanças estruturais que se sucederam, mais ou menos, em torno da década de 1980 com a queda do muro de Berlim; a transição democrática de vários países do mundo, inclusive da América do sul; a ascensão ou maior visibilidade das minorias, e os novos processos migratórios e diaspóricos.

A Literatura, nesse sentido, desenvolveu um papel transformador e liberador sobre as historias esquecidas e sobre aquelas ignoradas pela História com maiúscula, as Histórias oficiais. De fato as próprias formas literárias metamorfosearam-se, criando uma hibridação de gêneros (o testemunho, diários de cárcere, a auto-ficção, o ensaio, as novas autobiografias, o chamado romance pós-moderno, entre outros) e permitindo que um leque imenso de enunciações puderam vir a tona e acrescentar para o mundo milhões de histórias. As Crônicas de sidario de Pedro Lemebel, por citar um exemplo, são paradigmáticas ao respeito. O gênero crônica se esfacela e é, por sua vez, redimensionado a partir do discurso histórico enunciado por uma voz urbana, homossexual que narrativiza a vida nas ruas do Chile da ditadura.

Ao mesmo tempo, o vínculo novo entre Literatura e História criou também possibilidades de re-leitura das Histórias Oficiais, tentando fazer ressurgir aquelas vozes antes silenciadas, podendo captar momentos chave da experiência histórica num sentido mais íntimo e mais humano, dessa forma novas personagens apareceram de Tiradentes até Zumbi dos Palmares, de Mariano Moreno até Colombo. Novos autores israelenses, turcos, afegãos ou da Europa do Leste ficcionalizaram trechos das histórias dos seus países como uma forma de dar sentido a experiências traumáticas sob o poder da ironia e do humor. Abril rojo de Roncariolo e La hora azul de Cueto narram, sob formas diferentes e pontos de vida antagônicos, esses anos de Sendero Luminoso e a vida no Peru; O sub-comandante Marcos e Paco Taibo II escrevem a quatro mãos o romance Mortos Incômodos (falta o que falta) numa procura de preencher os vazios da história dessas últimas quatro décadas de México.

O mundo, nesse sentido, ficou mais largo e mais próximo, as verdades menos absolutas; as histórias — paradoxalmente — mais verdadeiras.

Agradecemos a participação da professora Silvina, que com carinho e atenção de sempre nos atendeu ao pedido de participação no blog.

Raphael Reis
Pós-Graduando em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF)
Graduado em História (UFJF)
Tutor de Espanhol (UFJF)
raphaeloliveirareis@yahoo.com.br

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